Furibunda, ela recusou-se aceitar o simples facto: deixara-o ao abandono e roubaram.
Era um maço de cigarros e um isqueiro verde que já vivia consigo há muito tempo. Os isqueiros perdem-se tão facilmente. Mas este perdurava na missão de lhe dar luz sempre que o procurava.
Olhava pela rua abaixo iluminada pelo sol de Domingo - indiferente e distante de tudo - numa vã esperança de reaver o que perdera. Como se neste universo, olhar para trás significasse migalhas para o que se perdeu encontrar de novo o seu caminho.
E de cada vez que perdia algo, repetia-se a história e os sentimentos que acompanham esse momento. Sempre a mesma omnipotência de que nunca lhe aconteceria a ela, sempre a mesma desilusão e descrença em tudo o que resiste à efemeridade.
E o astro Brilhando nessa rua como se de uma solidão nos campos de alcatrão se tratasse e fosse naquele momento a única pessoa com uma fenda no lugar da mente.
Sunday, November 18, 2007
Sunday, October 21, 2007
pedras
Cruzando o espaço numa nova empresa, desta feita, a de procurar novas energias noutros planetas, um spacecraft engineer depara-se pela primeira vez com uma cicatriz que nunca vira numa sua colega. Situava-se ao pé do lóbulo da sua orelha esquerda, junto ao colarinho de um branco impecável, dentro do fato cinzento e amarelo.
“Quando chegar à Terra, vou tentar...o que tenho eu a perder?” – pensa.
Ela dá-lhe os gradientes enumerados da análise geológica da última paragem, enquanto pensa “Tenho de contar a verdade ao chefe assim que o vir!”
Na cena seguinte há um plano geral da nave cada vez mais pequena há medida que a câmara faz um zoom out e vemos um enorme meteorito a seguir o seu caminho, em direcção à nave.
“Quando chegar à Terra, vou tentar...o que tenho eu a perder?” – pensa.
Ela dá-lhe os gradientes enumerados da análise geológica da última paragem, enquanto pensa “Tenho de contar a verdade ao chefe assim que o vir!”
Na cena seguinte há um plano geral da nave cada vez mais pequena há medida que a câmara faz um zoom out e vemos um enorme meteorito a seguir o seu caminho, em direcção à nave.
sonho I
Sai de casa e bate com o carro numa esquina de um passeio. Assarapantado, abre a porta do carro e dirige-se já em força contra o passeio. Dá-lhe um pontapé e o passeio começa a moldar-se, transformando-se na parece branca de uma casa-de-banho. Os azulejos brancos intercalam-se com os azúis e motivos náuticos. Não reconhece a casa-de-banho mas vê um elefante de marfim verde. E sabe de quem é esse elefante.
Acorda. A última imagem que retém é a de um sinal de trânsito numa esquina: beco sem saída.
Acorda. A última imagem que retém é a de um sinal de trânsito numa esquina: beco sem saída.
A dispersão da vida
O tempo e o espaço existem para que haja movimento. O caminho que fazemos. Quando vamos até ao café para continuar o usual, o familiar, esperamos que tudo decorra como ontem, anteontem e até mais atrás. Anos foram precisos para criar esse quotidiano que fisicamente empalidece em interesse um outsider mas que dentro de nós é tudo.
Todavia, um dia acordamos e começamos esse caminho para descobrirmos que algo mudou.
Aproximamo-nos, estão lá pessoas e, no entanto, algo não está bem. Enquanto nos sentamos, esse barqueiro que se mantém fiel à barca e ao rio que atravessa entre o balcão e as mesas dirige-se a nós trazendo-nos o café. Descobrimos que os nossos sentidos não devem estar a funcionar porque o líquido sabe, realmente a... café. O gesto automático do braço impõe-nos o jornal e procuramos descortinar se nas suas parangonas nos solucionam o químico mistério do café. O jornal, com desdém e superioridade, devolve-nos o mesmo olhar estranho que lhe damos. Pesquisamos o ambiente circundante, disfarçando o enorme incómodo que se apossa lenta e insidiosamente na nossa alma. Que ninguém repare, esperamos.
Todavia, ninguém repara porque não está vivalma que pudesse saber ver-nos.
Tal como personagens numa peça (interessantíssima, suspeitamos nós) continuam os seus papéis respeitando as didascálias e as falas que sabem de antemão, ensaiadas ontem, anteontem e até mais atrás.
Situamos a cena no racional: entramos no decorrer doutra peça, falhamos a entrada hoje. Amanhã será diferente. Vamos dormir e esquecer e decerto que amanhã voltaremos a entrar no momento certo ou mesmo na nossa peça. Estará lá R a ler o jornal e a falar das sessões especiais de cinema que verá, J discutirá sempre como se fosse a primeira vez até onde a acção da nossa vontade é livre, saberemos se o trabalho sobre Montaigne de N foi bem recebido pelo professor da cadeira, da exposição ou da peça que alguém fará, das festas que estão para acontecer, C e D estarão a fumar e a falar do Bloco enquanto o joelho dele toca ao de leve a perna dela e ela a passear a sua mão pela manga da camisola dele (e quanta profundidade estará ali à nossa vista nesse pequeno passeio!) e outras participações especiais, intensas como cometas e por isso efémeras, também comporão a aguarela. Sim, é verdade, amanhã será diferente!
Inteligentemente, o leitor deste texto calculou já que o amanhã não virá. Naturalmente, lembrar-se-á de já ter ouvido aquela máxima “Não nos podemos banhar duas vezes no mesmo rio” , pois corre sempre. A personagem da história é que não se lembrou disso, não é? Incauta, ela voltou ao mesmo café. E se calhar estavam as mesmas pessoas da peça do dia anterior e ela acompanhada pelo mesmo mal-estar, incómoda sensação de estranheza. Ela é persistente e continuará a tentar ver se o seu café regressa à mesa.
E um dia acordará e não irá mais aquele café. Pensará que se lá não for não terá de se confrontar com aquele travo amargo não de cafeína mas o verdadeiro, o da tristeza, o do vazio com que se fica quando se banhou no rio da felicidade.
Vestirá indiferença durante o dia e à noite surgirá, às vezes, uma teimosa menina vestida de verde. E quando adormecer, essa menina trará encenações da nossa pequena peça de felicidade pretérita. De manhã, os sonhos adormecerão na almofada. E a personagem levantar-se-á mais cansada com os vestígios desse passado na memória do coração.
Aliás, durante algum tempo decidirá odiar e negar a importância desse café.
Assim dito, a personagem voltará a esse café em 2008. O conflito arruma-se rápido com o salto de rompante para o precipício disfarçado de coragem cega. Sorrirá timidamente para o barqueiro, com a menina dentro de si em bicos de pé para ver se ele a reconheçe. E, no sorriso dele, a personagem perceberá as saudades que tem daquele café que, não tendo o exacto sabor de outrora, contém uma especiaria interessante e nova: o sentido de tudo isto. Sairá feliz nesse dia soalheiro, verdejante pelas folhas das árvores e pelo seu brilho nos olhos. Afinal, a Primavera volta todos os anos. Durante a tarde encontrará alguém e contará o que sucedeu neste tempo todo. A sua vida continuará, plantando raízes noutros cafés que os seus pés encontrarão para descansar. Muitas das vezes, entrará na sua peça, a tempo e tudo! E noutras vezes reconhecerá a peça de outros e dar-lhes-á o devido protagonismo e ribalta.
Às cinco horas da tarde do seu septuagésimo quarto Inverno, ao lado do seu filho mais novo, pedirá um café que lhe surgirá castanho-torrado cobrindo o enegrecido sabor que espera. Pegará nele, mas já não o beberá. Numa fracção de segundo, a sua mente levá-lo-á para o primeiro de todos os cafés. O ruído, os olhares cúmplices, as saudações iniciais e as questões habituais, o café trazido à mesa e a discussão a acender-se. Cada uma das pessoas a ter de se ir embora, porque têm aulas, porque vão trabalhar, por isto ou por aquilo. E dos jogos “Logo às 7.”, dos “Até já!” ou “Bom fim-de-semana!”. E lembrar-se-á das primeiras duas vezes em que chamou o empregado e lhe disse: “O meu é descafeinado, se faz favor!”.
Os olhos brilharão um pouco mais antes da mão perder o tónus muscular e do copo cair com toda a sua força no chão entornando o seu negro conteúdo pelo tapete azulado.
Lá fora, recomeçará a chover.
Mas, por agora, permanece a sensação de que algo fica, sem saber bem o quê, e de que os nossos vazios esperam esses barqueiros que nos vão reconhecendo e às nossas peças. Hoje, ela tem outros planos. Decide tomar um chá enquanto vê um oldie na televisão. Ou mesmo começar um livro. Ainda não sabe, mas encontra-se levemente feliz.
Todavia, um dia acordamos e começamos esse caminho para descobrirmos que algo mudou.
Aproximamo-nos, estão lá pessoas e, no entanto, algo não está bem. Enquanto nos sentamos, esse barqueiro que se mantém fiel à barca e ao rio que atravessa entre o balcão e as mesas dirige-se a nós trazendo-nos o café. Descobrimos que os nossos sentidos não devem estar a funcionar porque o líquido sabe, realmente a... café. O gesto automático do braço impõe-nos o jornal e procuramos descortinar se nas suas parangonas nos solucionam o químico mistério do café. O jornal, com desdém e superioridade, devolve-nos o mesmo olhar estranho que lhe damos. Pesquisamos o ambiente circundante, disfarçando o enorme incómodo que se apossa lenta e insidiosamente na nossa alma. Que ninguém repare, esperamos.
Todavia, ninguém repara porque não está vivalma que pudesse saber ver-nos.
Tal como personagens numa peça (interessantíssima, suspeitamos nós) continuam os seus papéis respeitando as didascálias e as falas que sabem de antemão, ensaiadas ontem, anteontem e até mais atrás.
Situamos a cena no racional: entramos no decorrer doutra peça, falhamos a entrada hoje. Amanhã será diferente. Vamos dormir e esquecer e decerto que amanhã voltaremos a entrar no momento certo ou mesmo na nossa peça. Estará lá R a ler o jornal e a falar das sessões especiais de cinema que verá, J discutirá sempre como se fosse a primeira vez até onde a acção da nossa vontade é livre, saberemos se o trabalho sobre Montaigne de N foi bem recebido pelo professor da cadeira, da exposição ou da peça que alguém fará, das festas que estão para acontecer, C e D estarão a fumar e a falar do Bloco enquanto o joelho dele toca ao de leve a perna dela e ela a passear a sua mão pela manga da camisola dele (e quanta profundidade estará ali à nossa vista nesse pequeno passeio!) e outras participações especiais, intensas como cometas e por isso efémeras, também comporão a aguarela. Sim, é verdade, amanhã será diferente!
Inteligentemente, o leitor deste texto calculou já que o amanhã não virá. Naturalmente, lembrar-se-á de já ter ouvido aquela máxima “Não nos podemos banhar duas vezes no mesmo rio” , pois corre sempre. A personagem da história é que não se lembrou disso, não é? Incauta, ela voltou ao mesmo café. E se calhar estavam as mesmas pessoas da peça do dia anterior e ela acompanhada pelo mesmo mal-estar, incómoda sensação de estranheza. Ela é persistente e continuará a tentar ver se o seu café regressa à mesa.
E um dia acordará e não irá mais aquele café. Pensará que se lá não for não terá de se confrontar com aquele travo amargo não de cafeína mas o verdadeiro, o da tristeza, o do vazio com que se fica quando se banhou no rio da felicidade.
Vestirá indiferença durante o dia e à noite surgirá, às vezes, uma teimosa menina vestida de verde. E quando adormecer, essa menina trará encenações da nossa pequena peça de felicidade pretérita. De manhã, os sonhos adormecerão na almofada. E a personagem levantar-se-á mais cansada com os vestígios desse passado na memória do coração.
Aliás, durante algum tempo decidirá odiar e negar a importância desse café.
Assim dito, a personagem voltará a esse café em 2008. O conflito arruma-se rápido com o salto de rompante para o precipício disfarçado de coragem cega. Sorrirá timidamente para o barqueiro, com a menina dentro de si em bicos de pé para ver se ele a reconheçe. E, no sorriso dele, a personagem perceberá as saudades que tem daquele café que, não tendo o exacto sabor de outrora, contém uma especiaria interessante e nova: o sentido de tudo isto. Sairá feliz nesse dia soalheiro, verdejante pelas folhas das árvores e pelo seu brilho nos olhos. Afinal, a Primavera volta todos os anos. Durante a tarde encontrará alguém e contará o que sucedeu neste tempo todo. A sua vida continuará, plantando raízes noutros cafés que os seus pés encontrarão para descansar. Muitas das vezes, entrará na sua peça, a tempo e tudo! E noutras vezes reconhecerá a peça de outros e dar-lhes-á o devido protagonismo e ribalta.
Às cinco horas da tarde do seu septuagésimo quarto Inverno, ao lado do seu filho mais novo, pedirá um café que lhe surgirá castanho-torrado cobrindo o enegrecido sabor que espera. Pegará nele, mas já não o beberá. Numa fracção de segundo, a sua mente levá-lo-á para o primeiro de todos os cafés. O ruído, os olhares cúmplices, as saudações iniciais e as questões habituais, o café trazido à mesa e a discussão a acender-se. Cada uma das pessoas a ter de se ir embora, porque têm aulas, porque vão trabalhar, por isto ou por aquilo. E dos jogos “Logo às 7.”, dos “Até já!” ou “Bom fim-de-semana!”. E lembrar-se-á das primeiras duas vezes em que chamou o empregado e lhe disse: “O meu é descafeinado, se faz favor!”.
Os olhos brilharão um pouco mais antes da mão perder o tónus muscular e do copo cair com toda a sua força no chão entornando o seu negro conteúdo pelo tapete azulado.
Lá fora, recomeçará a chover.
Mas, por agora, permanece a sensação de que algo fica, sem saber bem o quê, e de que os nossos vazios esperam esses barqueiros que nos vão reconhecendo e às nossas peças. Hoje, ela tem outros planos. Decide tomar um chá enquanto vê um oldie na televisão. Ou mesmo começar um livro. Ainda não sabe, mas encontra-se levemente feliz.
Wednesday, September 26, 2007
Muito antes é poeta aquele que inspira do que aquele que é inspirado. Éluard, Paul
Há um mundo que lhe pertence e ao mesmo tempo parece que ela simplesmente paira. A sua presença etérea é fundamental para aquele cenário como um pilar que segura o pano de cair a meio da cena. Encontra-se distante, o olhar encontrado em algo que não vemos. E é tão familiar aquele momento. Onde o teremos visto? Quem nos terá ensinado que naquele momento qualquer acção é ilegal e que qualquer respiração mais brusca a acorda e a faz voar dali para fora? Ou vir ter connosco. E a peça aí começa mas a essência já passou. Isto não é beleza; é o Sagrado.
Nada
Em cada hora que passa devo desistir para aí umas 10, 20 vezes de algo. Um pensamento, uma acção, uma fala, uma pessoa...puff, caem que nem tordos. Não me orgulho mas deve fazer parte de uma selecção que fazemos dado o nível baixo de tolerância ao falhanço que cada um tece como uma aranha preparando o leito mortal do seu próximo companheiro. Isto é, com afinco, a teia cresce e engrossa-se e o tempo de espera alonga-se. E há aquele estúpido dia em que nos perguntamos: porque não tive calado?
O título desta grosa poderia ser algo como “como desistir a tempo de dar a impressão que foi uma decisão racional e não o peso das circunstâncias”. O lixado é mesmo cair, a cabeça ficar do tamanho de um alfinete. Caído no chão, por onde alguém passa e o calca. E onde se lê cabeça, é favor de substituir por coração.
O título desta grosa poderia ser algo como “como desistir a tempo de dar a impressão que foi uma decisão racional e não o peso das circunstâncias”. O lixado é mesmo cair, a cabeça ficar do tamanho de um alfinete. Caído no chão, por onde alguém passa e o calca. E onde se lê cabeça, é favor de substituir por coração.
Thursday, September 13, 2007
A Questão
Perguntaram-me de chofre "Quem és tu Maria João?".
A resposta saiu calmamente como quando nos deitamos numa onda e flutuamos no mar a olhar para o céu azul, "Hoje sou uma pessoa que bateu num carro".
A resposta saiu calmamente como quando nos deitamos numa onda e flutuamos no mar a olhar para o céu azul, "Hoje sou uma pessoa que bateu num carro".
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